A LEITURA DE OBRAS DE ARTE: uma perspectiva Filosófica e Metodológica
- Alixandre Santos Filho

- 29 de jan.
- 14 min de leitura

Por Dr. Alixandre Santos Filho
A leitura de uma obra de arte é um processo que vai além da simples observação visual, exigindo um entendimento profundo dos seus elementos visuais e simbólicos. Diferente da leitura de um texto linguístico, a leitura de uma obra de arte depende de uma "linguagem visual", onde as formas, cores, texturas e composições se tornam os elementos centrais para a interpretação. Este artigo pretende explorar as noções fundamentais da leitura de obras de arte, utilizando as premissas filosóficas de Luigi Pareyson (1997) e abordagens metodológicas influenciadas pelas concepções de Kant (1995) e Hegel (2017).
2. LEITURA DE OBRAS DE ARTE: COMPLEXIDADE E RECONSTRUÇÃO
A leitura de uma obra de arte é um ato complexo, conforme enfatiza o texto. Este ato envolve tanto a construção da imagem visual quanto a percepção mental da mesma por quem a contempla. Isso significa que, ao realizar uma leitura, não apenas observamos os elementos formais da obra, mas também os reconstruímos mentalmente, interpretando-os com base nas nossas experiências e no nosso conhecimento prévio.
Pareyson (1997) sublinha a necessidade de que, nesse processo de leitura, o observador reconstrua a obra em plenitude, para que ela revele a sua realidade sensível. Esta reconstrução permite que a obra de arte se mostre completamente ao espectador, não apenas como um objeto estático, mas como uma manifestação dinâmica de significados. A arte, portanto, torna-se um meio de contemplação e fruição, oferecendo tanto uma experiência estética quanto um conteúdo espiritual.
2.1 O Que a Obra de Arte Revela?
Na perspectiva de tentar compreender o que uma obra de arte revela, Pareyson (1997) propõe três dimensões essenciais:
· Significado Espiritual: A obra de arte pode conter um conteúdo espiritual profundo que transcende a sua forma física. Este conteúdo espiritual relaciona-se muitas vezes com questões metafísicas, religiosas ou filosóficas, e exige um olhar atento e contemplativo para ser descoberto.
· Valor Artístico: O valor artístico de uma obra não reside apenas na sua técnica ou execução, mas também na sua capacidade de provocar uma resposta emocional e intelectual no observador. A obra deve ser avaliada não só pela sua técnica, mas pela maneira como transmite sentimentos, ideias e emoções.
· Contemplação e Fruição: A leitura de uma obra culmina na contemplação, onde o observador atinge uma compreensão mais plena da obra, e na fruição, onde ele experimenta o prazer estético derivado dessa compreensão.
3. METODOLOGIA FILOSÓFICA: KANT E HEGEL
A análise proposta por Pareyson (1997) enfrenta dois pontos de vista filosófico-metodológicos centrais: a concepção kantiana e a concepção hegeliana. Estas duas abordagens oferecem diferentes perspectivas sobre como devemos abordar a leitura de uma obra de arte.
3.1 Kant e a Estética da Subjetividade
Para Kant, a experiência estética está profundamente enraizada na subjetividade do observador. A obra de arte é contemplada como um objeto de prazer desinteressado, onde o valor da obra reside na sua capacidade de evocar uma resposta estética sem uma função prática. A apreciação da beleza é uma experiência puramente subjetiva, livre de qualquer utilidade ou propósito além do próprio prazer.
Assim, ao analisar uma obra de arte a partir de uma perspectiva kantiana, a ênfase está na experiência individual e no prazer estético que a obra proporciona, sem que seja necessário atribuir-lhe um significado objetivo ou universal.
3.1.1 A experiência com o belo
Immanuel Kant, um dos filósofos mais influentes da modernidade, propôs uma concepção de estética que se afasta da ideia de que a arte tem um valor puramente objetivo ou intrínseco. Na sua obra Crítica da Faculdade do Juízo (1790), Kant explora como a apreciação do belo é uma experiência que depende, em grande medida, da subjetividade do observador. Em vez de uma obra de arte ser valorizada apenas pelas suas qualidades técnicas ou pela sua capacidade de representar o mundo de forma fiel, Kant argumenta que a apreciação do belo é uma experiência desinteressada e universal, baseada no juízo subjetivo de quem a contempla.
3.1.2 A Estética do Juízo Estético
Para Kant, o juízo estético é um tipo particular de juízo que não se baseia no conhecimento ou nos conceitos racionais, mas sim no prazer ou desprazer que uma obra de arte provoca no sujeito que a contempla. Este juízo é subjetivo, pois decorre da experiência interna do observador, mas também é universal, no sentido em que Kant acreditava que todos os seres humanos partilham uma capacidade inata de experimentar o prazer estético de uma forma similar.
Exemplo Prático:
Imagine observar um quadro famoso, como A Noite Estrelada de Vincent van Gogh. Segundo Kant, ao apreciar essa obra, a resposta estética não depende de um conhecimento prévio de técnicas de pintura ou do contexto histórico do quadro. O que importa, em primeiro lugar, é o prazer estético imediato que o observador sente ao olhar para a combinação das cores, a fluidez das pinceladas, e a forma como os elementos se conjugam para criar uma impressão visual harmoniosa e fascinante.
Esse prazer, de acordo com Kant, é desinteressado. Ou seja, não se admira a obra porque ela tem alguma utilidade prática, porque retrata uma paisagem real conhecida ou porque tem algum valor simbólico específico. O prazer que se sente provém puramente do aspeto estético da obra. A experiência do belo, para Kant, é completamente desligada de qualquer propósito ou interesse prático – é um prazer "pelo simples facto de ser belo".
3.1.3 Beleza Desinteressada e a Subjetividade
Um dos conceitos centrais da estética kantiana é o de que a beleza deve ser apreciada de forma desinteressada. Isto significa que, ao observar uma obra de arte, o espectador não deve ter em mente nenhum objetivo ou utilidade específica para a obra, mas deve apenas deixar-se envolver pela sua beleza. Para Kant, esta apreciação pura da beleza é a verdadeira experiência estética, porque não é influenciada por fatores externos como desejos, necessidades ou interesses.
Exemplo de Beleza Desinteressada:
Ao contemplar uma escultura clássica como o Discóbolo de Míron, o espectador não deve preocupar-se com a função da obra ou se ela representa de forma realista um atleta em movimento. O foco está simplesmente em como as formas da escultura transmitem uma sensação de equilíbrio, harmonia e proporção. Não importa se a escultura tem ou não um propósito prático; o que importa é o prazer estético que a sua forma gera.
3.1.4 Juízos de Gosto e Universalidade Subjetiva
Embora o juízo estético seja subjetivo (ou seja, depende da experiência de cada indivíduo), Kant defende que há uma espécie de universalidade no prazer que sentimos ao apreciar o belo. Isto significa que, apesar de cada pessoa vivenciar o prazer estético de uma forma individual, há uma esperança de consenso, ou seja, que outros também concordem que aquela obra é bela. Para Kant, o que torna o juízo de gosto especial é precisamente este caráter universal que transcende a mera preferência pessoal.
Exemplo Prático:
Quando se aprecia uma obra como o David de Michelangelo, pode-se pensar que a resposta emocional à escultura é subjetiva. Contudo, a expectativa é que outros, ao observarem a mesma obra, também sejam capazes de reconhecer a sua beleza e sentir um prazer estético semelhante. O conceito de beleza kantiano implica, então, que existe um sentido comum de gosto entre os seres humanos, que pode ser partilhado universalmente.
3.1.5 Apreciar a Arte sem Conceitos: O Belo Livre
Outro conceito importante em Kant é a distinção entre o belo aderente e o belo livre. O belo aderente é aquele que depende de uma função ou conceito, como a beleza de um edifício que serve como catedral. Já o belo livre é aquele que não está sujeito a nenhum conceito ou finalidade, como uma flor, uma peça de música ou uma obra de arte puramente decorativa.
Ao observar uma pintura abstrata, por exemplo, podes estar a lidar com o belo livre, porque não há um objetivo claro ou uma função prática associada à obra. A beleza da pintura está completamente desligada de qualquer utilidade ou significado concreto, sendo apreciada exclusivamente pelas suas qualidades estéticas, como as cores, as formas e a harmonia da composição.
Exemplo Prático:
Pense em uma pintura abstrata de Wassily Kandinsky, onde não há figuras reconhecíveis ou símbolos diretos. A beleza da pintura não reside em representar algo concreto ou funcional, mas apenas na combinação de cores, formas geométricas e linhas. Este é um exemplo do que Kant chamaria de belo livre, porque é apreciado sem a necessidade de recorrer a conceitos ou significados específicos.
3.1 6 Enfim, a Estética Kantiana revela
A estética kantiana coloca a experiência individual e subjetiva no centro da apreciação artística. Segundo Kant, o valor da arte não reside necessariamente em como ela reflete a realidade ou serve a um propósito concreto, mas no prazer desinteressado e universal que provoca em quem a observa. Esta teoria revolucionou a forma como pensamos sobre o belo, deslocando o foco da função ou do significado externo da obra para a experiência subjetiva do observador.
A ideia de que a apreciação da arte é uma experiência desinteressada permite-nos focar apenas no prazer estético que a obra nos oferece, destacando a importância da subjetividade na arte. Contudo, ao mesmo tempo, Kant sugere que existe uma universalidade na forma como todos nós, como seres humanos, somos capazes de apreciar o belo, o que torna a sua teoria não apenas individualista, mas também integrativa.
3.2 Hegel e o Espírito Absoluto
Por outro lado, a concepção hegeliana vê a arte como uma manifestação do Espírito Absoluto. Para Hegel, a arte não é apenas uma expressão subjetiva, mas uma representação objetiva de ideias espirituais e culturais mais amplas. A obra de arte, nesse sentido, revela verdades universais sobre a condição humana e a história.
A análise de uma obra de arte sob a ótica hegeliana exige uma compreensão profunda do seu contexto histórico e cultural, pois a obra é vista como um reflexo das ideias e valores de uma época específica.
3.2.1 O significado do Espírito Absoluto na Estética
Georg Wilhelm Friedrich Hegel, um dos maiores filósofos do idealismo alemão, apresenta uma visão bastante particular sobre a arte. Para Hegel, a arte não é apenas uma experiência subjetiva, como propõe Kant, mas também uma forma de expressão de algo muito maior e mais profundo: o Espírito Absoluto. A arte, segundo Hegel, é uma das formas mais elevadas de manifestação do Espírito, ao lado da religião e da filosofia.
Na filosofia de Hegel, o Espírito Absoluto refere-se à totalidade da realidade, à essência profunda que permeia toda a existência. Ele acredita que a história da humanidade é um processo contínuo de desenvolvimento e autocompreensão do Espírito, que se expressa através da arte, da religião e da filosofia, sendo a arte a primeira destas formas de expressão.
3.2.2 O Papel da Arte na Manifestação do Espírito Absoluto
Para Hegel, a arte é uma forma de expressão objetiva das ideias e do espírito de uma época. Cada obra de arte reflete as ideias universais do seu tempo e é, portanto, mais do que uma criação individual; é uma manifestação do Espírito, ou seja, das verdades universais e culturais que estão a ser exploradas por toda a sociedade.
A arte é, então, uma forma concreta de apresentar o Espírito e a Ideia. Hegel vê a arte como uma forma de autoconsciência humana, onde o Espírito (que é uma totalidade coletiva) se manifesta no mundo sensível através da criação artística. Essa visão faz da arte algo muito mais que um simples reflexo subjetivo de emoções; ela se torna uma realidade objetiva, que reflete verdades profundas sobre a humanidade e a sua evolução.
Exemplo Prático:
Se analisarmos uma obra como a Capela Sistina, pintada por Michelangelo, podemos perceber como essa obra vai além de ser uma bela pintura. A Capela Sistina manifesta a espiritualidade e os valores cristãos da época do Renascimento. Não é apenas a expressão individual de Michelangelo, mas sim uma representação de ideias universais sobre a religião, a humanidade e a relação entre o divino e o terreno. Ela reflete o Espírito de uma era que estava a redescobrir a importância do homem, ao mesmo tempo em que reafirmava o lugar central de Deus. Neste caso, a arte serve para materializar as ideias espirituais da época.
3.2.3 A Evolução Histórica da Arte segundo Hegel
Para Hegel, a arte evolui em três grandes estágios, que representam a forma como o Espírito Absoluto se manifesta ao longo da história:
1. Arte Simbólica: Esta fase é predominante nas culturas mais antigas, como no Egito e na Mesopotâmia, onde a arte tinha uma forma mais simbólica e abstrata. As formas artísticas eram muitas vezes desproporcionais ou estilizadas, e o objetivo principal era representar de forma indireta o divino e o transcendente.
Exemplo Prático:
As pirâmides egípcias são um excelente exemplo de arte simbólica. Elas não são apenas estruturas arquitetônicas; simbolizam algo muito maior – a ligação entre a vida terrena e a vida eterna, bem como a divindade dos faraós. Não representam fielmente o humano ou o divino, mas transmitem uma ideia espiritual poderosa.
2. Arte Clássica: O período clássico, especialmente na Grécia Antiga, é onde a arte atinge o seu auge em termos de harmonia e equilíbrio. Aqui, o Espírito começa a manifestar-se de forma mais clara e compreensível. A forma humana é representada de maneira idealizada, perfeita e harmoniosa. A beleza e a proporção tornam-se centrais na arte, e o divino é trazido para uma forma humana compreensível.
Exemplo Prático:
A escultura grega do Discóbolo de Míron é um exemplo clássico. A perfeição do corpo humano, capturada no movimento, representa o ideal de beleza grega. Nesta fase, o Espírito Absoluto manifesta-se através da perfeição formal, onde a humanidade e o divino se aproximam de uma mesma essência.
3. Arte Romântica: No terceiro estágio, a arte torna-se mais espiritual e interiorizada, representando o divino de maneira mais subjetiva. Aqui, a arte explora os sentimentos, a emoção e a individualidade. O Espírito está menos ligado ao mundo físico e mais ao mundo interior e espiritual. A subjetividade e a expressividade são os valores centrais.
Exemplo Prático:
A obra de Caspar David Friedrich, como O Viajante Sobre o Mar de Névoa, é um exemplo do período romântico. Aqui, o sujeito é colocado perante a imensidão da natureza, num cenário que evoca sentimentos profundos de introspeção e espiritualidade. A paisagem não é meramente decorativa, mas sim um reflexo da alma humana e da sua relação com o infinito. O Espírito Absoluto já não se manifesta apenas nas formas físicas, mas também nas emoções e nas ideias profundas que essas formas evocam.
3.2.4 A Arte Como Integração do Material e do Espiritual
Para Hegel, a arte é a síntese entre o material e o espiritual, o finito e o infinito. Através da arte, o infinito (as ideias, o divino, o Espírito Absoluto) pode ser compreendido no mundo finito (as formas sensíveis e concretas). A arte, portanto, não é apenas uma reprodução da natureza ou uma expressão individual de sentimentos, mas um veículo para transmitir verdades universais que pertencem ao espírito humano coletivo.
Exemplo Prático:
Uma obra como a Pietá, de Michelangelo, é um exemplo desse encontro entre o finito e o infinito. A escultura mostra Maria segurando o corpo de Cristo morto. Embora seja uma obra concreta e física, ela transcende o material e evoca ideias universais de sofrimento, sacrifício e redenção, ligadas ao cristianismo. Aqui, o Espírito Absoluto, nas suas formas mais elevadas, encontra expressão numa obra de arte tangível.
3.2.5 A Arte como Manifestação do Espírito Universal
Para Hegel, a arte é essencialmente uma forma de expressão do Espírito Absoluto, refletindo as ideias mais profundas e universais de uma época ou civilização. Ao contrário da visão de Kant, que enfatiza a subjetividade e o prazer individual na apreciação da arte, Hegel vê a arte como uma realização objetiva das ideias universais e do desenvolvimento espiritual da humanidade.
A arte, para Hegel, é um veículo através do qual a humanidade se compreende a si mesma e ao mundo à sua volta. Cada obra de arte é um reflexo das verdades universais que estão a ser exploradas e compreendidas pela sociedade no seu todo. Como tal, a arte não pode ser vista apenas como uma expressão individual, mas sim como uma manifestação concreta do desenvolvimento contínuo do Espírito, que se expressa através das formas sensíveis.
4. CONCLUSÃO: A INTERPRETAÇÃO E AVALIAÇÃO DA ARTE
A leitura de uma obra de arte, portanto, é um processo de interpretação, execução e avaliação, conforme descrito por Pareyson. Este processo envolve uma complexa interação entre os elementos visuais da obra e a subjetividade do observador, resultando numa experiência de contemplação que permite ao indivíduo apreciar a obra em sua totalidade. Ao confrontar as perspectivas kantiana e hegeliana, o leitor de uma obra de arte é desafiado a navegar entre a subjetividade da experiência estética e a objetividade das verdades culturais e históricas refletidas na obra.
A análise de obras de arte, com base nesses princípios, fornece-nos uma estrutura metodológica que pode ser aplicada a qualquer obra, independentemente do seu estilo ou época. Ela oferece não apenas uma forma de avaliar a qualidade artística de uma peça, mas também uma maneira de compreender os seus significados mais profundos, sejam eles espirituais, emocionais ou culturais.
Para Pareyson, a arte deve ser vivida e compreendida não apenas como uma criação estática, mas como uma interação dinâmica entre o observador e a obra. A leitura da arte é, portanto, um ato de descoberta que permite revelar a profundidade e a complexidade da obra, sendo fundamental considerar tanto os aspectos sensíveis quanto os intelectuais que ela envolve.
Quando colocamos Pareyson em diálogo com Kant, vemos que ambos reconhecem a importância do sujeito na experiência estética. Kant, na sua Crítica do Juízo, propõe que o julgamento estético é um ato de reflexão subjetiva, onde o observador experimenta a beleza como algo desinteressado e livre de conceitos. O prazer estético, para Kant, resulta da harmonia entre as faculdades do entendimento e da imaginação, e a beleza é algo que deve ser contemplado sem propósitos utilitários.
Pareyson, de forma similar, enfatiza que a obra de arte só pode ser completamente compreendida através de uma reconstrução subjetiva. No entanto, ao contrário de Kant, Pareyson não limita a experiência estética ao simples prazer subjetivo. Para ele, a arte envolve um processo mais profundo de descoberta e interpretação, onde o observador deve se engajar ativamente com a obra para revelar o seu sentido.
Assim, a interação entre Pareyson e Kant mostra que, embora ambos reconheçam a subjetividade no juízo estético, Pareyson vê a interpretação como um ato mais ativo e revelador do que a mera apreciação contemplativa descrita por Kant. A obra de arte, para Pareyson, é um campo aberto onde o observador deve participar na construção do seu sentido, em vez de apenas sentir prazer na sua contemplação.
Por outro lado, a relação entre Pareyson e Hegel situa-se numa perspectiva mais objetiva. Hegel vê a arte como uma forma de manifestação do Espírito Absoluto, onde as ideias universais e históricas de uma época são expressas através de formas sensíveis. A obra de arte, para Hegel, é um reflexo do desenvolvimento espiritual e cultural de uma sociedade, e a sua interpretação deve considerar o contexto histórico e as tensões dialéticas que a obra representa.
Pareyson alinha-se com Hegel ao sugerir que a interpretação da arte não é um processo puramente subjetivo ou individual. Para ele, assim como para Hegel, a obra de arte carrega um conteúdo objetivo que precisa ser revelado através da interação entre o observador e a obra. No entanto, Pareyson vai além de Hegel ao argumentar que a arte não revela apenas ideias universais, mas também a singularidade do processo criativo e da forma artística em si. Para Pareyson, a arte é tanto um processo de revelação espiritual quanto de expressão criativa única.
Com base nessas interações, a conclusão que emerge é que a leitura de uma obra de arte envolve tanto uma dimensão subjetiva quanto uma objetiva. Por um lado, como em Kant, a experiência estética implica um engajamento pessoal e subjetivo, onde o observador deve refletir e interpretar a obra de acordo com as suas próprias faculdades de entendimento e imaginação. Por outro lado, seguindo Hegel e Pareyson, essa interpretação não é completamente subjetiva; ela está enraizada num contexto histórico e cultural que dá à obra de arte o seu significado mais profundo.
A obra de arte, portanto, deve ser compreendida como uma sintaxe visual que se desenrola entre o sujeito que a interpreta e o objeto (ou forma) que a expressa. A interpretação da arte é um processo dialético, onde as ideias universais da obra (no sentido hegeliano) encontram a experiência subjetiva do observador (no sentido kantiano), mas sempre através de uma interação ativa e criativa, como propõe Pareyson.
Em última análise, a leitura de uma obra de arte, conforme Pareyson, exige que o observador reconstrua a obra em pensamento, permitindo que ela se revele plenamente. Essa revelação não ocorre passivamente, mas sim através de uma interação dinâmica entre o sujeito e o objeto artístico. A obra, então, é ao mesmo tempo uma criação sensível e uma manifestação espiritual, refletindo tanto o Espírito (no sentido de Hegel) quanto a subjetividade do observador (no sentido de Kant), sintetizados através do processo interpretativo que Pareyson descreve.
A leitura de uma obra de arte, sob a perspectiva de Pareyson, com influência de Kant e Hegel, envolve um equilíbrio entre subjetividade e objetividade. A experiência estética não se resume ao prazer subjetivo kantiano, nem é apenas a expressão das ideias universais hegelianas; é um processo de revelação e interpretação ativa, onde o observador participa na construção do significado da obra. A arte torna-se, assim, um veículo para a autoconsciência, uma interação entre o sujeito criador e o espírito universal, ambos envolvidos na formação do sentido e da compreensão estética.
5. REFERÊNCIAS
- Pareyson, Luigi. Estética. Teoria da Formatividade. 1997.
- Kant, Immanuel. Crítica da Faculdade do Juízo. 1790.
- Hegel, G.W.F. Estética: Curso de 1820-1829.



Comentários